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domingo, 16 de dezembro de 2012

Mentiras... Essa compulsão.

O Sr R era um sociopata da pior espécie. Deixemos até o "Sr" de lado, porque R não merece essa delicadeza. Era um verdadeiro mentiroso compulsivo, daqueles que só mostram o que são, à custa de grandes investidas do outro lado.
Diana, essa doce heroína citadina, conhecia-o desde sempre. Tinham feito o ensino básico juntos, tinham sido amigos. Na altura, R era apenas um puto desorientado e meio gordinho, mas os anos encarregaram-se de o tornar num homem alto, bonito e charmoso. Um verdadeiro chamariz, para um coração partido.
Quando se reencontraram, ao fim de todos aqueles anos, R tinha acabado de assumir o cargo de director comercial numa grande farmacêutica. Numa noite quente de outono levou-a a jantar num dos sítios mais in da cidade, o bastante para o clique acontecer. Aquela semana que teria certamente sido monótona e cinzenta, tornou-se numa verdadeira roda viva.
Por aqueles dias, o cérebro de Diana estava completamente entorpecido. Entre charros e riscos de neve, os dois viveram nos lençóis. Foderam até mais não e perderam necessárias horas de sono...
Teria sido bom terminar por aqui, sem necessidade de despedidas ou explicações, mas R tornou-se incapaz de viver sem fazer dramas. Prometeu-lhe o mundo! Em duas semanas de loucuras, prometeu-lhe uma vida para os dois, uma família... E depois foi embora. Sem nada lhe dizer, seguiu para Luanda a trabalho! Não falaram durante 1 mês.
Diana não engoliu aquela história, telefonou-lhe, e descarregou 30 dias de frustrações acumuladas via linha telefónica. R estupidificou-a, virou o bico ao prego. Acusou-a de o ter deixado, de não lhe atender o telefone, de o trair com outro. Argumentou como um bom comercial e mentiu até levar Diana ao limite. Desligaram o telefone e não mais se falaram ou encontraram.
Alguns anos depois, numa noite gélida de inverno, Diana resolvera sair com uma amiga. Enquanto percorriam uma rua escura para chegar ao novo bar de gins, um homem passou por elas. Raspou em Diana, mas ela não lhe conseguiu ver o rosto e o casaco que trazia deformava-lhe o corpo. Diana começava naquele momento a sentir os efeitos do charro que tinha fumado na rua minutos antes. Talvez por isso, com o olfacto mais apurado, lhe tivesse reconhecido o cheiro, mesmo depois de todos aqueles anos.
Não resistiu, tal como as crianças que tocam as campainhas e fogem, chamou-o:
- R!
Era realmente ele e voltou-se para trás ao reconhecer o seu nome, mas não disse nada.
- Desculpa!
Diana entrou no bar com a amiga e bebeu um Hendricks. Essa noite, ao chegar a casa, apenas adormeceu tranquilamente...

sábado, 24 de novembro de 2012

Solidão

A Diana já vivia há demasiado tempo sozinha.

Naquela noite, chegada a casa depois de umas boas horas a suar no ginásio, encontrara a sala vazia. Os seus saltos altos, que lá fora usara para fingir uma segurança enorme, ecoaram no espaço frio e pouco habitado. Sem jantar, abriu apenas uma garrafa de Duas Quintas, o tinto da sua preferência,  e bebeu-o numa tentativa de atenuar a dor de quem sente o coração a fechar-se. Inebriada, entrou num prolongado e sério monólogo que lhe permitiu ouvir a sua voz a encher o espaço aberto; entre duas passas dadas num charro esquecido, surgiu outra personagem que lhe mostrou um sorriso irónico e macabro. A outra estava ali apenas para contrapor os seus argumentos e levá-la à loucura.

Incapaz de sair daquele loop esgotante, em luta com ela própia, saiu para a noite, saiu para a caça... As suas últimas relações tinham sido insípidas, sem calor e sem tesão. Desde a última vez que tinha sentido uma penetração forte e intensa já tinham passado alguns anos, e ansiava por cair nos braços de um homem que a pudesse fazer feliz por algumas horas.

Aquela noite apenas encontrou luzes frias e um barulho ensurdecedor. Acordou sozinha por volta da uma da tarde, levantou-se e sentiu humidade num dos olhos. Não percebeu de onde tinha saído aquela lágrima.