Há momentos em que só me apetece ouvir The Cure. Nos momentos mais depressivos acabo sempre por regressar aos velhos clássicos como este To wish impossible things do álbum Wish de 1992.
Com mais de 30 anos de história e 13 álbuns editados em estúdio, já não há muito a dizer sobre esta banda inglesa que ainda hoje me faz chorar. Por isso convido-vos apenas a ouvir estas impossibilidades com as quais tenho sonhado demais nos últimos tempos.
Naquela noite, chegada a casa depois de umas boas horas a suar no ginásio, encontrara a sala vazia. Os seus saltos altos, que lá fora usara para fingir uma segurança enorme, ecoaram no espaço frio e pouco habitado. Sem jantar, abriu apenas uma garrafa de Duas Quintas, o tinto da sua preferência, e bebeu-o numa tentativa de atenuar a dor de quem sente o coração a fechar-se. Inebriada, entrou num prolongado e sério monólogo que lhe permitiu ouvir a sua voz a encher o espaço aberto; entre duas passas dadas num charro esquecido, surgiu outra personagem que lhe mostrou um sorriso irónico e macabro. A outra estava ali apenas para contrapor os seus argumentos e levá-la à loucura.
Incapaz de sair daquele loop esgotante, em luta com ela própia, saiu para a noite, saiu para a caça... As suas últimas relações tinham sido insípidas, sem calor e sem tesão. Desde a última vez que tinha sentido uma penetração forte e intensa já tinham passado alguns anos, e ansiava por cair nos braços de um homem que a pudesse fazer feliz por algumas horas.
Aquela noite apenas encontrou luzes frias e um barulho ensurdecedor. Acordou sozinha por volta da uma da tarde, levantou-se e sentiu humidade num dos olhos. Não percebeu de onde tinha saído aquela lágrima.
E assim regresso aos posts... Aos que por aqui passam regularmente, peço desculpa pela ausência, e espero que este "Laura", da querida Natasha Khan, a.k.a. Bat for Lashes, seja um prenúncio de um bom regresso à escrita e ao blog.
Aproveito para vos dizer que Haunted Man, o terceiro álbum da Bat for Lashes, que saiu no final do mês passado, tem soado vezes sem conta na minha rádio. 11 músicas saídas de um bloqueio de artista, como ela mesma disse. Assim sendo, vivam os bloqueios artísticos! Adoro o álbum, bem como este Laura.
Para acabar um longo dia e uma longa noite, deixo-vos com True Romance, para quem acredita nisso, destes good good Citizens. E neste caso vale mesmo a pena acreditar! Este grupo londrino de cinco, assinou com a editora electrónica / indie Kitsuné, e o novo disco, Here We Are, lançado em Maio deste ano e produzido por Alex Kapranos dos Franz Ferdinand, é realmente qualquer coisa.
Fiquem atentos a esta banda. Eu estou à espera de grandes sons..
Este filme de 2011, realizado por Jean-Marc Vallée, foi-me apresentado por bons e grandes amigos. Desconhecia a sua existência e suponho que tenha passado despercebido a muita gente. Contudo, não o podia deixar passar em claro. É um filme sobre o qual ainda reflicto, e devo reconhecer que me tocou. Não sendo brilhante ou genial, possui essa capacidade particular de me fazer esquecer as pequenas falhas, assim como os elos fracamente estabelecidos ou personagens pouco aprofundadas.
O filme é-nos apresentado através de vários fragmentos de duas histórias, e, entre flashbacks e flash-forwards, rapidamente compreendemos que estas histórias estão lincadas por um amor tão forte, que é capaz de atravessar décadas para ser revivido e apaziguado. Por um lado, na década de 60, vivemos a história de Laurent, uma criança com síndrome de Down, que é profundamente amada e inteligentemente protegida pela sua mãe, Jacqueline. O amor que ela sente pelo seu filho, é levado ao extremo, e aqui, reconheça-se a excelente interpretação de Vanessa Paradis como mãe de Laurent. Do outro lado da linha temporal, na actualidade, vivemos a vida de um DJ famoso, Antoine Godin, que acaba de se divorciar e sente ter encontrado a sua alma gémea.
As duas histórias completam-se e unem-se à luz da música do Doctor Rockit, mas também de uma banda sonora maravilhosa que inclui Pink Floyd, Sigur Rós ou The Cure. Próximos do final, conseguimos antever a ligação entre as personagens.
Mais do que outro pensamento, e como noutros filmes de Vallée, Café de Flore relembra-nos que quando amamos alguém, devemos saber estar com ele, mas devemos igualmente saber, quando deixá-lo ir. "If you love something, let it go. If it comes back to you, it's yours
forever. If it doesn't, it wasn't meant to be." – Anónimo.